GOTAS D'ÁGUA

1975 - EMI-ODEON - LP (SMOFB 3896)
1975 - EMI-ODEON - K7 (31C 264 421050)
1995 - EMI - CD (833409 2) – Série: ‘Os Originais’
Cordas
Violinos: Pareshi (Spalla), Alfredo Vidal, Marcelo Pompeu Filho, Santino Parpineli, João Daltro, José Alves, Walter Hack,Andréa Ozorio, Aizita Meillach, Paulo Nisenbaun, Salvador Piersanti e Paschoal Perrotta
Violas: Arlindoi Penteado, Fredericj Stephany, Nelson Macedo e Murilo Loures
Cellos: Watson Clis, Marcio Mallaro, Ana Devos e Giorgin Bariola
Contrabaixos com Arcos: Renato Sbragia e Edson Gusmão Lobo
Participação de Flauta: Celso Woltzenlogel
Regência: Antonio José Wagabi Filho (Magro)

 

Produtor Fonográfico: EMI-Odeon Fonográfica e Eletronica S.A
Direção Artística: Milton Miranda
Direção de Produção: Renato Corrêa
Produção Executiva: Hermínio Bello de Carvalho e Milton Nascimento
Orquestrações e Regências: Luizinho Eça, Wagner Tiso e Magro
Técnicos de Gravação: Roberto Castro/ Toninho/ Dacy/ Serginho
Técnico de Remixagem: Nivaldo Duarte
Corte: Osmar Furtado

Capa: Cafi e Ronaldo Bastos
Fotos: Cafi

 

‘Simone eu a conheci há menos de três anos. Acho que era uma tarde fria, e a casa onde estávamos ficava em São Bernardo do Campo. Falei em casa, mas era chalé com muita grama em volta. Nós sentamos lá fora, numa dessas mesas de concreto, a ‘Mescalina’ refastelada em meu pé.

Me lembro de seu carinho em servir-me na boca as trouxinhas de arroz-feijão-carne seca que preparava com as mãos, costume que ela, baiana de Capricórnio, e eu, carioca ariano, aprendemos a cultivar. Fomos então prum canto da casa (tinha lareira? – sei que eu estava meio bebinho de uisque) e então lhe forneci uma leitura nova, interiorizada, do ‘Voltei pro morro’, que a Carmem cantava jogando tudo pelas mãos. Por favor, não é que eu não gostasse; mas eu sentia de outro jeito também. Isso não vem ao caso, afinal.

Mone havia lançado seu primeiro LP há pouco – e coincidiu que andava eu procurando uma cantora para integrar um espetáculo cuja direção me fora confiada. Não alongando a história: escolhi SIMONE (‘Você é louco!’ – Uma desconhecida!’) e produzi um LP específico para o mercado Europeu – uma preparação de terreno, enfim. O espetáculo foi para a Bélgica, Alemanha e França ( no místico Olympia) a brasilidade do trabalho foi amplamente assumida, era uma espécie de panorama que englobava manifestações populares com outras aculturadas: maculelê, samba-de-roda, bossa nova, candomblé, chorinhos, capoeira.

O trabalho acabou repercutindo nos Estados Unidos. Voltamos ao Brasil e gravamos outro LP (‘Festa Brasil’, que deu nome ao novo espetáculo, um pouco reformulado) que, igual ao ‘A Bruxelles’, ficou distribuído só no mercado exterior. Foram 3 meses entre Estados Unidos e Canadá, com a crítica falando sempre da figura morena, de temperos tão fortes.

Assim ela foi criando seu nome no exterior – mas e no Brasil? Aqui se começava a falar de SIMONE e o LP ‘Quatro Paredes’ veio colocá-la em evidência junto ao público e à crítica.

Este ‘Gostas d’água’ tem muito a ver com o empoçamento que existe em seu coração. SIMONE é essa lâmina gotejada, ser dividido entre mulher e anjo.
Convidei Milton Nascimento para co-produzir este disco numa busca de soma, num momento em que, tantos se dividem. Porque para nós, Bituca é uma espécie de igreja. Sua admiração por Simone facilitou os trabalhos, e vocês podem observar pela Ficha Técnica a qualidade dos músicos que conseguimos agrupar nesta gravação. De Abel, Dino até o ‘som imaginário’.

Queremos oferecer o que se buscou lá no fundo e o que deixaram vir à tona. Que vocês amem SIMONE, como nós a amamos’

Hermínio Belo de Carvalho
Compartilhe esta página:
Lado A
Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta pro desfecho da festa
Por favor

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água 

Músicos:
Wagner Tiso (Órgão e Piano)
Novelli (Baixo Elétrico)
Toninho Horta (Guitarra)
Paulinho (Bateria)
Chico Batera (Efeitos de Percussão)
Nivaldo Ornellas (Flauta)
Milton Nascimento (Voz/ Piano)
Arranjo: Wagner Tiso

Diga que não tem muita importância
Diga que não tem nenhum valor

Apague a luz, por favor, quando for lamentar
e agredir meu nome
um cigarro às vezes dá pra refletir

Abra a janela se por acaso for
necessário gritar meu nome
que a solidão às vezes dá pra aperrear

Faça a cidade acordar e depois vá deitar
vá dormir pensando
que amanhã posso voltar sem reagir

Músicos
Luiz Eça (Piano)
Luisão (Baixo)
Wildon das Neves (Bateria)
Chico Batera (Percussão)
Paulo Moura (Sax Alto)
Arranjo de Base: Luizinho Eça|
Arranjo de Cordas: Magro

Quem sou eu
Pra ter direitos exclusivos sobre ela
Se eu não posso sustentar os sonhos dela
Se nada tenho e cada um vale o que tem

Quem sou eu
Pra sufocar a solidão da sua boca
Que hoje diz que é matriz e quase louca
Quando brigamos, diz que é a filial

Afinal, se amar demais passou a ser o meu defeito
É bem possível que eu não tenha mais direito
De ser matriz por ter somente amor pra dar

Afinal, o que ela pensa em conseguir me desprezando
Se sua sina sempre é voltar chorando
Arrependida, me pedindo pra ficar

Músicos
Dino (Violão 7 Cordas)
Luisão (Baixo)
Paulinho (Bateria)
Abel Ferreira (Clarinete)
Wagner Tiso (Piano Elétrico)
Arranjo: Coletivo

Ah, você não sabe há quanto tempo
Ando pensando em te deixar
Não é sem ter razão de ser
Você me deslocou, me dissolveu,
Me desprezou, desmoronou, desmereceu
E me desacreditou, desprotegeu
Me desanimou do que era meu ...

Eu aqui fechada em nossa casa
E você solto por aí
Agora eu vou também viver
E me desenvolver, me despertar,
Me descobrir, me desvendar, me distrair
Só pra te desenganar, desiludir
Do que você quer que eu venha a ser ...

Sei que você vai desesperar
Mas como sempre, só depois
Depois que tudo desandar
Mas eu agora sou outra pessoa
Que você só desconheceu
Cansada do descaso teu ...

Querendo desfazer e desmanchar e destruir
E descambar e desistir
Pra depois desabafar, descontrair,
Desaparecer, e decidir ...

Músicos
Chiquito/ Maurício Maestro (Violões)
Luisão (Baixo)
Wilson das Neves (Bateria)
Chico Batera (Tumbadoras)
Paulo Moura (Sax Alto)
Arranjo de Base: Luizinho Eça
Arranjo de Cordas: Magro

Deu uma hora ...
Deu duas horas ...
O silencio em meu quarto, é pavoroso
Na escuridão eu escuto os seus passos
No meu delírio, ela volta a meus braços
Ela abalou meu sistema nervoso ...

Ela
Toda noite aparece
Me beija e foge através da vidraça
No meu delírio, me levanto e abro a janela
E só o vento, o vento frio é que me abraça ...
Ela abalou meu sistema nervoso ...

Músicos
Wagner Tiso (Piano e Órgão)
Novelli (Baixo)
Paulinho (Bateria)
Nivaldo Ornellas (Flauta / Sax Soprano)
Arranjo: Wagner Tiso

Lado B
Nós dissemos
Que o começo é sempre, sempre inesquecível
E, no entanto, meu amor, que coisa incrível
Esqueci nosso começo inesquecível

(Mas me lembro de uma noite  
Sua mãe tinha saído
Me falaste de um sinal adquirido
Numa queda de patins em Paquetá ...
Mostra... Doeu?
Ainda dói
A voz mais rouca,
E os beijos: cometas percorrendo o céu da boca)

As lembranças acompanham até o fim o latin lover,
Que hoje morre,
Sem revólver, sem ciúmes, sem remédio,
De tédio

Músicos
Paschoal Meirelles (Tumbadoras)
Novelli (Baixo)
João Bosco (Violão)
Paulo Moura (Sax Alto)
Chiquito (Guitarra com Mu-Tron III)
Wagner Tiso (Piano Acústico)
Arranjo de Base: Coletivo
Arranjo de Cordas: Magro

Arregaça o colo, morena, pra eu - regaça
De polo a polo isso que Deus lhe deu de graça
Que eu me consolo em pensar que isso é meu
Como você prometeu
E, se não for, morena - eu te violo

Arregaça o colo morena, pra eu, regaça
Quero teu corpo espalhado no meu, devassa
Sem brinco, argola, anel ou camafeu
Nada no leito de Orfeu
Só na vitrola a voz do João em solo ...
Regaça o colo pra eu, morena devassa

Músicos
Luizinho Eça (Piano e Sintetizador)
Bebeto (Baixo e Flauta)
Elcio Milito (Bateria)
Chiquinho (Cordovox)
Chiquito (Violão)
Arranjo: Luizinho Eça

Tanta gente no meu rumo
Mas eu sempre vou só
Nessa terra, desse jeito, já não sei viver
Deixo tudo, deixo nada, só do tempo eu não posso me livrar
E ele corre para ter meu dia de morrer

Mas se eu tiro do lamento um novo canto
Outra vida vai nascer
Vou achar um novo amor
Vou morrer só quando for

Ah! jogar o meu braço no mundo
Fazer meu outubro de homem
Matar com amor essa dor
Vou fazer desse chão minha vida
Meu peito é que era deserto
O mundo já era assim

Tanta gente no meu rumo, já não sei viver só
Foi um dia, e é sem jeito, que eu vou contar
Certa moça me falando, alegria
De repente ressurgiu
Minha estória está contada, vou me despedir

Músicos
Wagner Tiso (Piano e Órgão)
Novelli (Baixo)
Paulinho (Bateria)
Chico Batera (Percussão)
Nivaldo Ornellas (Flauta)
Arranjo: Wagner Tiso

Grande é grande a tua coragem, o teu amor
Tu és o fogo, o vento, chuva da manhã
Vá, não acendas a fera doida que existe em mim
Tu és mulher, cuidas da casa e da família
Mas não és da ribeira

Amaldiçoas a minha vida, tu não vês
Que o meu destino é de cigano e sonhador
A minha bota cheia de medo, silêncio e pó
Por aí segue caminho, segue sozinha
Suja e verdadeira

Idolatrada amiga, destino e mulher
Amigos tive, amigos tenho e terei
Eu sou em casa, eu sou no mundo o que eu sou
Tu não vês que nossa vida é o nosso filho
da cor brasileira

Músicos
Wagner Tiso (Piano e Órgão)
Novelli (Baixo)
Paulinho (Bateria)
Chico Batera (Percussão)
Nivaldo Ornellas (Flauta)
Arranjo: Wagner Tiso

...Disse que aqui mais nada é de graça,
Nada é de coração
Vamos num tal de toma-de-lá dá-cá,
Minha nega, eu pago pra ver
Ver por debaixo o osso do angu

Disse que aqui mais nada tem troco,
Tudo o que vai não vem
Perdem bodoque, facão-corneta,
Quebra a defesa, nega fulô
Que o trem tá feio e é bem por aqui

Meu facão guarani
Quebrou na ponta, quebrou no meio
Eu falei pra morena que o trem tá feio,
iá, iê, iá, iê, iá

E a cana-caiana
Eu disse a raiva, a carne de sol
Palha, forró e fumo de rolo,
Tudo é motivo pra meu facão
Arma de pobre é fome é facão

Abre semente, aperta inimigo,
Espeta até gavião
Corta-sabugo e lança um desafio,
Não conta nem até três
O trem tá feio e é bem por aqui

Músicos
Novelli/ Toninho Horta (Violões)
Tavinho (Violão)
Beto Guedes (Viola e Pandeiro)
Paulinho (Bateria)
Chico Batera (Percussão)
Arranjo: Coletivo

Eu nem ligo
Nem esquento a cabeça
Vou com força nas coisas
Que eu quero e devo fazer
Eles querem que eu
Me aborreça, estremeça
E me prenda nas cercas
Do seu circo mortal
Eu prossigo e não perco a cabeça
Vou traçando as palavras
Como eu quero e devo traçar

Eles querem que eu
Me afobe e confunda
Mas eu ponho nas sombras
Do seu circo mortal

Tem que ser
Da largura do arame
O elemento é preciso
Estrutura é vital
Eu sou
Da largura do arame
O elemento é preciso
Estrutura é vital

Músicos
Wagner (Piano Elétrico e Órgão)
Toninho Horta (Guitarra)
Novelli (Baixo)
Paulinho (Bateria)
Ornellas (Flauta)
Arranjo: Wagner Tiso